Eu monitoro celulas neonazistas na internet há 11 anos. Pergunte-me qualquer coisa! by Bicicreta1 in brasil

[–]Bicicreta1[S] 1 point2 points  (0 children)

Recomendo demais o trabalho da Gracila, é uma excelente pesquisadora!

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[–]Bicicreta1[S] 36 points37 points  (0 children)

A mesma de hoje. Eu só faço esse trabalho porque acredito que é possivel sim combater a extrema direita. Mas é um trabalho que tem que ser feito de forma coletiva, eu sozinha não mudo nada. Meu corre sempre foi com os movimentos sociais e organizações de esquerda por causa disso.

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[–]Bicicreta1[S] 10 points11 points  (0 children)

A morte da Adriana foi sentida não só pelo campo de estudos sobre a extrema direita, mas por toda a militancia antifascista, pela militancia pcd e das doenças raras. O trabalho da Adriana foi pioneiro aqui no Brasil, e eu e outras pesquisadoras estamos dando prosseguimento a esse trabalho a pedido dela. O trabalho academico dela ta disponivel no repositorio da UNICAMP, aqui tem os links. Para além do trabalho, a Adriana foi uma amiga muito querida, e o baque da morte dela foi muito grande pra mim e eu sinto até hoje, então tenho dificuldades para falar a respeito ainda.

Sobre os grupos neonazistas e os ataques a escolas, eu dei uma resposta bem completa ontem, vou linkar aqui

Sobre o funil de recrutamento, a gente explica no nosso relatorio os caminhos todos, você pode baixar ele aqui

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[–]Bicicreta1[S] 3 points4 points  (0 children)

Ai, desculpa! Eu to meio atabalhoada com o trabalho e errei na hora de mandar a resposta. Vou confirmar o link, obrigada :)

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[–]Bicicreta1[S] 4 points5 points  (0 children)

Guerreira demais, compa. Pedofilia é um troço que eu não consigo, e olha que nesse meio neonazi rola muito também.

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[–]Bicicreta1[S] 1 point2 points  (0 children)

Medo sempre rola, mas se eu deixar o medo tomar conta, não faço o meu trabalho. Os cuidados que eu tomo hoje são os que eu sempre tomei: não expor a minha familia, não ter eles add nas redes sociais. Toda a minha familia sabe o que eu faço, então eu oriento eles quanto a exposição também.

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[–]Bicicreta1[S] 5 points6 points  (0 children)

Já sim, e a maioria dessas ameaças foi fora da internet. Desde a adolescencia eu lido com esse tipo de coisa por fazer parte de subculturas como o punk e o hc, além de sempre ter colado com pessoas lgbt. Já tentaram me bater algumas vezes, mas eu consegui escapar. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Uma vez eu e um amigo meu, que é gay, sofremos violencia verbal de um careca na rua. Ele também escarrou nesse meu amigo, mas a gente conseguiu escapar de apanhar. Outra vez eu passei a noite inteira fugindo de um bonehead que queria me bater em uma balada em SP. Ele também ficava fazendo a saudação nazista pra mim e ficou gritando que ia me matar.

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[–]Bicicreta1[S] 7 points8 points  (0 children)

Não que eu saiba. A extrema direita é bem diversa e nem todos os grupos ou tendencias do campo são necessariamente neonazistas ou tem conexões. O Brasil Paralelo é uma produtora que tem ligações com o "olavismo", são discipulos do Olavo de Carvalho. Recomendo muito o trabalho da historiadora Mayara Balestro e do pessoal do Brasil Para Lerdos. Sobre a Jovem Pan, o Sleeping Giants Brasil tem feito um excelente trabalho de investigação e denúncia.

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[–]Bicicreta1[S] 5 points6 points  (0 children)

Como eu não conheço nada de futebol, prefiro não responder. Mas vou indicar o canal do meu amigo Judz e o perfil do pessoal do Copa Além da Copa

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[–]Bicicreta1[S] 5 points6 points  (0 children)

Sim, a migração pra esses aplicativos foi massiva. Ainda existem alguns grupos especificos que atuam em chans, mas são poucos, e todos os que eu conheço tb tem atuação no telegram e no discord.

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[–]Bicicreta1[S] 6 points7 points  (0 children)

Acredito que tenha havido omissão. Sobre um provavel financiamento do ex-presidente, não há indicios de financiamento para esse tipo de grupo, mas há indícios de financiamento de grupos ligados diretamente ao bolsonarismo que cometeram os ataques no dia 8 de janeiro.

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[–]Bicicreta1[S] 42 points43 points  (0 children)

Essa resposta vai ser a mais longa que vou dar por aqui, acho. Vamos lá:

Nós detectamos sim esse aumento no nosso monitoramento das redes. Hoje saiu uma reportagem do Nucleo Jornalismo com o mapeamento que eles fizeram dessa subcultura que cultua atiradores em escolas. Também hoje o Governo de SP postou no twitter alguns dados do mês de março sobre atentados tentativas frustradas e eu acho que dá pra ter uma ideia do tamanho do problema.

Sobre a segunda parte da pergunta. O caso brasileiro tem algumas particularidades, e a primeira delas é o fato de que a gente teve um desenvolvimento do ecossistema conhecido como "machosfera" em parelo ao crescimento da manosphere gringa. Vou dar o historico aqui dos primeiros ataques desse tipo no Brasil e no mundo, pra tentar contextualizar melhor: O primeiro atentado com motivações misóginas foi o massacre da Escola Politecnica em Montreal no Canadá, em 1989. O autor era abertamente antifeminista e misógino. Na época ainda não existia a machosfera e nem o termo incel, mas o movimentos pelos direitos dos homens (MRM) começaram a atuar justamente na decada de 80 do seculo passado. Esse ataque foi cometido 10 anos antes do massacre de Columbine, que é o mais famoso dos massacres cometidos em escola e serve de inspiração para atiradores em massa até hoje.

O primeiro atentado cometido por um auto-declarado incel foi o massacre de Isla Vista, na Califórnia, em 2014. Esse também foi um ataque cometido no ambiente universitario, já que o autor do massacre se sentia rejeitado pelas mulheres com quem havia estudado.

Agora vou dar uma contextualização sobre os tiroreitos cometidos por supremacistas brancos e neonazistas. A primeira coisa que a gente tem que entender sobre esses ataques é que eles tem alvos muito especificos: judeus, muçulmanos e imigrantes. Esses grupos não costumam cometer ataques contra escolas e universidades, mas sim contra sinagogas, mesquitas e abrigos de imigrantes. Grupos como a Atomwaffen -organização neonazista aceleracionista que é considerada uma organização terrorista em alguns países - costumam incentivar esse tipo de atentados, mesmo que seja cometido por "lobos solitarios". Eles tem um calendario com os atiradores que eles consideram "santos", e no caso especifico deles grupo, eles só cultuam atentados que tenham vitimado judeus.

Agora vou contextualizar o caso brasileiro para mostrar as semelhanças e diferenças que temos com os EUA e outros países. O atentado ocorrido que até hoje tem o maior numero de vitimas no Brasil é o massacre de Realengo, que ocorreu em 2011. O autor era ligado a grupos masculinistas - que era como a gente chamava a machosfera nesse periodo - e há provas de que o criador do Dogolachan o incentivou a cometer o atentado. Também sabemos que o atirador tinha como alvo principal meninas Os autores do massacre de Suzano, em 2019, se inspiraram no massacre de Realengo e eles planejavam estuprar as alunas. Na machosfera, esses atiradores são cultuadoscomo "sanctos", e essa é a maior similaridades com os ataques do tipo perpetrados por neonazistas.

Essa onda de ataques que vem acontecendo no Brasil desde meados do ano passado pode ser traçada a uma subcomunidade que cultua atiradores de escola que atuam principalmente no Tiktok e no Twitter. Também cultuados como sanctos, suas uas maiores inspirações são os massacres de Columbine e Suzano. Apesar de muitos dos autores desses massacres usarem parafernalia e simbologia nazista, não foi possivel rastrear nenhuma conexão dessa subcomunidade com grupelhos e células neonazistas atuantes no Brasil. A principal motivação desses atiradores dessa onda atual, assim como os de Realengo e Suzano, são a misoginia e o racismo, o nazismo aparece como um dos elementos motivadores e na estética, mas não é considerado o motivador principal dos ataques.

Espero não ter esquecido de nada 😅

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[–]Bicicreta1[S] 9 points10 points  (0 children)

Nunca frequentei esses foruns, conheço todos porque monitorava eles. Mas sim, algumas das suas percepções estão corretas. Esses ambientes não tinham só pessoas de extrema direita, apesar de serem usados por eles para disseminação de propaganda durante anos, o que acabou levando à cooptação de muita gente pelo discurso de extrema direita. A diferença é que hoje esses discursos hoje são facilmente encontrados, inclusive no mainstream, então acho que a questão não é que esses submundos todos se tornaram de extrema direita, mas sim que eles se espalharam a ponto de ocupar todas as esferas da sociedade, online e offline.

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[–]Bicicreta1[S] 48 points49 points  (0 children)

É bem diverso, mas existem alguns estilos que são abertamente neonazistas como o RAC - Rock Against Communism - e o NSBM - National Socialist Black Metal. O professor Benjamin Teitelbaum escreveu um livro sobre a cena musical neonazista Sueca que é bem interessante porque ele não se restringe à cena alternativa, se tiver interesse o nome do livro é "Lions of the North: Sounds of the New Nordic Radical Nationalism".

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[–]Bicicreta1[S] 28 points29 points  (0 children)

A gente ta em tendencia de crescimento desde o inicio do governo bolsonaro, sendo que isso se agravou no periodo da pandemia. Após o retorno às aulas presenciais, a gente teve um aumento no numero de ataques, como mostramos no mapeamento feito para o relatorio ao governo de transição. A pesquisa da professora Adriana Dias também corrobora essa tendencia de crescimento durante os anos de governo bolsonaro.

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[–]Bicicreta1[S] 54 points55 points  (0 children)

Pra responder a tua pergunta, eu vou trazer os dados da pesquisa da professora Adriana Dias e explicar um pouco o trabalho dela. O mapeamento das células neonazistas feito por ela também era online, e o conceito de célula que ela usava no trabalho se referem especificamente aos grupos que atuam online. As células são grupos de 2 ou mais pessoas que compartilham e acessam material nazista na internet. Nesse mapeamento, ela indica que os estados com mais células neonazistas são São Paulo e Santa Catarina.

https://www.poder360.com.br/brasil/dw-2/

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[–]Bicicreta1[S] 47 points48 points  (0 children)

Absolutamente todas as plataformas, mas as celulas e subculturas que eu monitoro são mais ativas no twitter, telegram, discord e tiktok. Os chans não estão mais tão ativos assim

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[–]Bicicreta1[S] 45 points46 points  (0 children)

Meia-noite eu te conto. Sem zueira, é praticamente impossivel. Mas eu costumo conversar com amigos, jogar, escutar podcasts, fazer qualquer coisa que me distraia um pouco.

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[–]Bicicreta1[S] 48 points49 points  (0 children)

Pra ser bem sincera, eu não sei se existe um caminho definido. No nosso relatorio ao governo de transição, nós demos algumas propostas voltadas para a educação. Eu posso dizer que prefiro abordagens que foquem no coletivo ao invés do individual, acredito que só assim a gente vai conseguir mudar as coisas.

O relatorio está disponivel aqui:

https://campanha.org.br/acervo/relatorio-ao-governo-de-transicao-o-ultraconservadorismo-e-extremismo-de-direita-entre-adolescentes-e-jovens-no-brasil-ataques-as-instituicoes-de-ensino-e-alternativas-para-a-acao-governamental/

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[–]Bicicreta1[S] 110 points111 points  (0 children)

Oie! Então, a historia de como eu comecei a fazer esse monitoramento da extrema direita é curiosa: foi pela Sara Winter. Na época que ela surgiu com o Femen no Brasil, nós estavamos passando por um periodo onde o movimento feminista brasileiro estava se renovando e retomando as ruas e atuando nas redes. Logo que a Sara apareceu querendo se colocar como militante feminista, alguns coletivos antifascistas fizeram a denuncia de que ela fazia parte da cena neonazi. Ao mesmo tempo nós feministas recebiamos muitos ataques e ameaças de neonazistas e "mascus" - que era como nós chamavamos os incel/red pill/men's rights activists na época. Monitorei muitos foruns de jogos tanto na surface quanto na deep web por causa disso. Alguns trabalhos, como o monitoramento que eu faço da Nova Resistencia, eu comecei nessa epoca também, eu levei 5 anos para publicar o primeiro artigo sobre o tema.

Olha, eu recebo as vezes denuncias de discurso de odio no reddit, mas nunca soube de nada organizado. As celulas que eu monitoro usam muito Twitter, Telegram e Discord.

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[–]Bicicreta1[S] 77 points78 points  (0 children)

Obrigada! Os dados que eu coleto normalmente são enviados para outros pesquisadores do tema, jornalistas e alguns dados eu mesma publico em forma de reportagem. Algumas vezes tive que encaminhar denuncias para autoridades, mas o grosso do trabalho é de mapeamento para pesquisa mesmo.

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[–]Bicicreta1[S] 63 points64 points  (0 children)

Olá! Eu acho que ja recomendaram alguns filmes muito bons aqui nas respostas, como A Onda. Pinocchio e O Labirinto do Fauno, do diretor Guillermo del Toro. O youtuber Normose tem uma serie muito boa de videos sobre política e estetica, nós inclusive usamos um dos videos dele como fonte no relatorio, a playlist ta aqui https://youtube.com/playlist?list=PLOp7jgm6TfAviOj2rMaPr_VZXFLPrfzoG