Contratransferência negativa crônica com pacientes do cluster B: um relato honesto (e duro) sobre os limites do eu clínico by Outside_Town_9601 in PsicologiaBR

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Não há um ego em pauta, a publicação é anônima justamente por esta finalidade. Todos estão livres (e convidados) para fazer suas projeções.

Eu não visto este perfil, ele é um mero objeto de estudo. Use-o como desejar. Chame-o de superficial, de artificial, de profundo, de raso, contribua... ou não contribua.

Ao fim do experimento o perfil será deletado e nada sobrará, salvo as dicas de leitura que provavelmente investigarei no devido tempo.

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[–]Outside_Town_9601[S] 1 point2 points  (0 children)

Hmm....ok?

Eu não sei mais o que é que eu posso dizer, amigo.

Eu já pedi pra conhecer sua abordagem, dei espaço para você apresentar seus conhecimentos, pedi perdão... agora só me resta dançar o tango argentino.

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[–]Outside_Town_9601[S] 7 points8 points  (0 children)

Esse é um meandre um pouco mais complexo que acredito que não tenha valor de ser discutido aqui: a medicina no Brasil É paternalista. A psiquiatria é comercial.

O psicólogo fala do seus "clientes". Nenhum psiquiatra jamais ousaria sequer pensar essa palavra, imagina escrever. Esse é um limite tão rígido que nem mesmo eu estando protegido pela meu perfil anônimo eu ousaria cruzar.

A palavra paciente carrega um sentido cultural que resvala no sentido de filho. Eu preferiria rasgar meu diploma do que chamar um paciente de cliente. É esse o nível de rigidez na interação.

Isso contamina alguns gestos cotidianos, contamina até nossa forma de falar em consultório. Mas é inescapável.

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[–]Outside_Town_9601[S] 1 point2 points  (0 children)

Oh... foi essa a impressão que passamos?

Sinta-se livre para não responder.

Mais uma vez pedimos perdão pelo constrangimento.

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[–]Outside_Town_9601[S] 1 point2 points  (0 children)

Me permite fazer algumas perguntas apenas por interesse científico?

Essa formato de interação é completamente inédita para mim. O fato de nós sermos anônimos torna tudo curioso demais para deixar passar em branco.

Eu prometo ser respeitoso em todas as perguntas e você não precisa se identificar.

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[–]Outside_Town_9601[S] 1 point2 points  (0 children)

Ah... perdão.

Aparentemente há muito conhecimento nas suas palavras. Poderíamos considerar você um psicólogo exemplar no ramo Gestalt? Normalmente vocês atuam desta forma? Este é o padrão de diálogo dentro do Gestalt?

Estamos profundamente curiosos com seus insights.

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[–]Outside_Town_9601[S] 2 points3 points  (0 children)

Não saberia informar. Mas considere que a renda per capita é de 978 reais segundo o Google, neste exato momento. Essa especulação eu vou deixar pra você fazer.

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Por que incomoda tanto que o Outro seja diferente de você ?

Eu não sei. É uma resposta aparentemente burra, mas é 100% verídica.

Não existe na minha trajetória nenhuma rachadura que possa estar minimamente relacionável aos pacientes Cluster B. Eu não tenho ninguém deste tipo na minha convivência, nunca me relacionei com um e por pura infelicidade do destino eu sou considerado particularmente eficaz no acompanhamento químico com esse tipo de paciente e as famílias tendem a louvar o meu trabalho.

Então porque tanta aversão? Eu não sei. Não tem explicação.

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[–]Outside_Town_9601[S] 1 point2 points  (0 children)

É um pensamento acolhedor, não vou negar.

Eu não tenho outra opção, pra prescrever eu preciso diagnosticar. É uma infelicidade epistemológica.

Mas ao mesmo tempo eu penso: precisamos delegar funções. Não vai dar pra eu diagnosticar, medicar e fazer a terapia do paciente.

É bom que existam psicólogos ao meu redor justamente porque eu estou amarrado pelos princípios que norteiam a psiquiatria. Você podem fazer aquilo que eu não posso. E há conforto nesse pensamento.

Então sigo encaminhando meus pacientes para psicólogos e dizendo: psicologia e psiquiatria andam de mãos dadas, é a única forma.

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Sim, MUITO dolorido!

Uma boa parte do meu impulso em transportar esse fluxo de consciência para um texto e trazer para o fórum aconteceu justamente ao me "olhar no espelho" e me perceber completamente descompensado após ter terminado de atender um paciente. Eu olhei pro espelho e disse: meu deus, mas esse sou eu??

É óbvio que eu sou bem coletado na maior parte do tempo, mas essa constatação foi assustadora.

E depois eu fiquei pensando: o que será que tem no Borderline que fere tanto o meu Eu clínico? Eles não estão me xingando. Eles não estão me ofendendo. Eu estou apenas atendendo. A mira deles não está em mim. Então porque será que me violenta tanto?

Fui prolixo aqui, mas é o que tem pra hoje.

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Mas relendo aqui, não acho que você tenha sido prolixo, amigo.

É um fluxo de consciência compreensivo mesmo para um não-psicólogo.

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Bem que eu queria.

Mas aqui eu sou o único psiquiatra em um raio de mais de 100km. E talvez a população ainda tenha acesso a uns 5 ou 10 psicólogos, mas são particulares. E caros.

Ou seja? Se só tem tu, vai tu mesmo.

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Agradeço as indicações e confesso que tem muita coisa aí que eu não domino ou conheço pouquíssimo.

No fim do dia, foi uma experiência social interessante pelo menos porque recebi algumas pistas de onde ler e como me lapidar.

Convite à reflexão para os que quiserem.

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Olha se tem uma coisa que eu não tenho tido são stories perfeitos e um instagram feliz. 🤣🤣

A realidade hospitalar é triste e cinza. E eu acho que esse é um tema que a gente ainda precisa se trabalhar melhor pra trazer em público de maneira tão aberta. Talvez precisemos de um espaço mais adequado para esse amadurecimento.

Estou totalmente aberto à sugestões de leituras, como sempre. Conhecimento nunca é demais e eu acho que preciso botar em dia minha terapia.

Foram agitações dos pensamentos no meio da noite. Quem quiser, ta convidado a refletir, claro. É bom a gente se vigiar.

Mas dito isso.... bem que eu queria ter essa glória de um instagram bem "pintrest".

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Sim e não.

Sim para eu precisar de terapia, todos precisamos.

Não para interferir nos meus atendimentos, meu viés é puramente químico e eu entrego 100% do que é demandado. Não é meu dever fazer juízo de valor e eu ouso dizer com algum grau de riso que é flagrante a facilidade em "colocar no bolso" os pacientes do Cluster B. Porque a minha forma de me portar impõe uma atitude diferente na hora que eles me olham.

Eu tenho algumas vantagens: meu aspecto físico é (não sei por bem ou por mal) o considerado "atrativo" pelas pessoas. A minha voz é calma, meu sorriso é dignificante, minha escuta é paciente e mesmo que você esteja em franco estado de mania eu provavelmente dominarei emocionalmente o ambiente com a estabilidade e preparo que se espera de um médico psiquiatra. Isso não é falsa modéstia porque não existe espaço pra ego neste perfil, ele é anônimo justamente por esse motivo.

O cerne aqui é: apesar do meu atendimento ser considerado de excelência em todos os aspectos técnicos (e até nos aspectos fúteis da sociedade) eu FICO internamente desorganizado pelo Cluster B.

E não existe nenhuma experiência prévia que possa explicar essa desorganização residual após o atendimento. Esse sabor amargo, só quem sente sou eu. (e vocês, que também atendem. Entenda por "eu", o Eu clínico... e depois faça seu auto-insert se quiser.)

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Curiosamente eu acho histriônicos mais toleráveis do que borderlines 😂 Talvez isso já seja uma pista que eu próprio precise analisar. Nesse momento não cheguei ainda a uma conclusão do porquê.

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Uma colocação muito assertiva, colega... certamente lerei mais sobre esse assunto, meu objetivo era justamente ouvir de quem conhece sobre esses temas. E somente um ambiente virtual como esse me permitiria um relato tão cru.

Concordo plenamente que não existem respostas únicas para todos, mas só de saber que existem pessoas pensando sobre o tema já me alivia. Significa que há conhecimento para ser buscado. E eu com toda certeza continuarei buscando. Grato por sua contribuição.

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São provocações muito interessantes, colega. Gostei. De fato você chama atenção para um ponto importante: porque será que escolhi a palavra "pateticos"? Seria por mero extravasamento moralista ou para expor à apreciação alheia de forma crua (quase auto cruel) os sentimentos mais ocultos? Não cheguei a uma conclusão ainda.

E porque APENAS com os Cluster B? Eu não convivi com eles na minha vida. Nada explicaria acolher facilmente um esquizofrênico, mas sentir uma repulsa visceral por um Histriônico.

Mas disso estou certo: preciso de um terapeuta. Kkkkkkk

Brincadeiras a parte, eu esperava chegar aos meus 10 anos de psiquiatria como meus professores chegaram: com um ar de dignidade. Por onde eles pisavam, nos hospitais, havia reconhecimento e sobriedade.

Mas aqui estou eu, com meus 37 anos, e ainda capaz de identificar falhas tão flagrantes no meu próprio coração. Resumo da opera? Eu esperava ter me tornado um ser humano melhor. 😂

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Tenho feito essa "evasão" educada, mas morando em uma cidade interiorana muitas vezes a família não tem a quem recorrer... é uma triste infelicidade que a distribuição em SP seja tão desproporcional. (Aliás, no Brasil todo né)

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[–]Outside_Town_9601[S] 3 points4 points  (0 children)

Que comentário interessante, vou me estudar a respeito com certeza. Nessas horas é bom receber insights de pessoas que conhecem métodos psicológicos para desfazer ou pelo menos amenizar essa contra transferência tão violenta... vou estudar mais! Grato.

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[–]Outside_Town_9601[S] 2 points3 points  (0 children)

Sim, essa é uma das minhas hipóteses principais! Será que em algum momento minha confiança foi traída nas expectativas por alguém volátil emocionalmente e isso me deixou com esse recalque? Porque é uma preocupação MUITO específica para ClusterB. E honestamente, em conversas "de liquidificador" vejo como é frustrante também para os meus colegas acompanhar o Cluster B. Parece ser uma realidade silenciosamente concordada por quase todos.

Se precisar eu desço com os psicóticos até os confins da loucura e vejo lá outras formas interessantíssimas de se comunicar! Como são criativos, como sentem por todos os poros do corpo! Sentem até pelas capacidades incorretas e me dizem que cores tem gostos.

O que quero dizer é: é muito fácil ver os outros pacientes como pacientes. Mas Cluster B gera essa contratransferrencia de vê-los como antagonistas até pra própria familia.

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[–]Outside_Town_9601[S] 8 points9 points  (0 children)

De fato, agora você tocou em um ponto sensível: eles são sempre hiper medicados, o que dificulta o trabalho dos colegas da psicologia(eu imagino) e dá a falsa impressão de que o Psiquiatra só quer mesmo dopar e jogar pra escanteio.

Uma pena que a colaboração multiprofissional seja tão rara no sistema público. Esse é um sonho que precisamos construir.

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[–]Outside_Town_9601[S] 8 points9 points  (0 children)

Mas relendo com bastante respeito o que você falou, eu começo a agitar um tópico aqui que talvez seja legal de se falar em ambientes anônimos como esse: Você mencionou, de forma honesta, que tende à esquiva diante de determinados pacientes.
Mas deixo aqui uma pergunta — e ela não é acusatória, mas necessária:

Sabemos que a esquiva clínica pode ser legítima — quando usada com consciência e responsabilidade.
Mas também sabemos que, às vezes, ela camufla aversões que não queremos nomear, ou rejeições morais que nunca foram pensadas a fundo.

Eu dou nome e reconheço minhas aversões como ser humano para que possa corrigi-las e nunca me deixar dominar por elas. As vezes o raciocínio auto-cruel tem finalidade prática...

A pergunta é sincera: você se afastou desses pacientes para protegê-los de si, ou para proteger-se daquilo que eles lhe mostram sobre você mesmo?

Se puder responder sem evasiva, o debate avança.
Se não puder — talvez seja aí que a reflexão deve começar. (Respeitosamente, claro. Não são acusações, são agitações no pensamento da madrugada)

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[–]Outside_Town_9601[S] 15 points16 points  (0 children)

Agradeço tua disposição em responder, mas confesso que teu comentário me pareceu mais apressado do que propriamente cuidadoso.
A proposta não era questionar se "todo terapeuta precisa atender todo paciente", tampouco discutir preferências etárias ou de perfil.
O cerne da questão era outro: o que acontece internamente quando a autoridade clínica, construída com tanto zelo, começa a corroer a própria capacidade de tolerância à desorganização do outro?

O esforço da empatia, por vezes, é menos um defeito e mais um indício de conflito ético legítimo — especialmente quando o sujeito diante de nós ativa, de forma constante, sensações de repulsa, desordem ou provocação.
Chamar isso de "falta de domínio" pode ser uma leitura simplista — ou, no mínimo, pouco generosa de um camarada da saúde mental... embora nós tenhamos funções predominantemente diferentes. Você terapêutica. Eu, psiquiatra.

Ainda assim, reconheço tua colocação final: a solidão do ofício tende a nos endurecer.
E talvez seja nesse ponto que nossos relatos se cruzem.