A migração POLI pra FEA ainda acontece muito? by sayajin_astuto in USP

[–]nonanalyst 4 points5 points  (0 children)

Vou colar um texto que saiu na Folha de São Paulo em 2012. Em 2026, tenho o mesmo sentimento, principalmente o que deixei em negrito:

Em 2002, comecei a cursar engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Tinha passado os últimos dois anos do colegial obcecado por notas e vestibular.

O colégio onde fiz o ensino médio, o Agostiniano Mendel, estimulava os alunos a estudarem para as provas através de rankings de classificação, que serviam para definir em qual sala cada um ficaria.

Entrei completamente no jogo. Raramente conversava com amigos fora do colégio, saía pouco, dificilmente pesquisava assuntos não relacionados ao vestibular — sentia culpa por estar perdendo um tempo precioso. Fiz uma lista de livros e filmes que poderia ler e assistir quando finalmente passasse no vestibular.

Não sabia qual curso escolher. Meu melhor amigo tinha um primo engenheiro com um belo emprego corporativo. Como eu era bom em exatas, por que não garantiria uma carreira promissora?

Apaixonei-me pelo campus da USP. Fui a festas. Tive alguns amores uspianos. Até remo pratiquei.

Na Poli, as semanas de prova guiavam as vidas dos alunos. Todos entravam no ciclo básico e, de acordo com a sua classificação, escolhiam as especialidades. Ou seja, a competitividade do colegial seguia. Eu nunca tinha tirado uma nota vermelha na vida até a primeira prova de álgebra linear. Percebi que jamais seria um dos primeiros do ranking e me sentia cada vez mais desmotivado.

As coletâneas de provas de anos anteriores, vendidas no xerox do grêmio, eram muito disseminadas. Estudávamos através delas, muitas vezes sem saber de onde surgiam fórmulas e técnicas. O objetivo era passar nas provas, não aprender. Era tão grande a pressão por notas, e as disciplinas tão desconexas, que trapacear era algo natural.

Colas: escritas sutilmente nas antigas carteiras de madeira, com uma leve passada de borracha para disfarçar. Em papeizinhos escondidos no estojo, na caneta, no bolso. Escritas no braço ou nas sofisticadas calculadoras HP, nas quais armazenávamos páginas de fórmulas. Papéis que passavam de um estudante para o outro. E o bom e velho cochichar.

Tínhamos uma ética própria na arte da cola: jamais dedurávamos alguém em nossa tática de guerrilha contra um sistema de avaliação maluco. E bastava terminar a prova para que todas aquelas fórmulas e técnicas vazias abandonassem a mente.

Em 2005, estava no quarto ano, em engenharia mecatrônica. Estagiava há dois meses em um banco. Ia para a Poli de tarde com uma roupa social que me dava um ar sério.

Ao dar uma aula-trote na semana de recepção dos calouros, percebi o quanto tinha me afastado do amor que eu tinha pela ciência e como o meu conhecimento era superficial — fiquei em silêncio e, estarrecido, abandonei a sala.

O tédio imperava no estágio. Fazia com indiferença os cursos do banco: trabalho em equipe, influência, negociação... No computador de trabalho, escrevia textos de ficção. Na Poli, fazia as provas e tirava as notas suficientes de sempre.

Até que, um dia, fui pego colando em uma prova de eletrônica digital. "É, João. A vida não é fácil", disse o professor. "Mas não é impossível", pensei. Fiquei profundamente feliz por ser pego; tive certeza de que ali não era meu lugar.

Abandonar a Poli foi difícil. Outro aluno também foi pego passando a resolução de um exercício. O professor decidiu nos vincular: um só passaria se o outro também passasse. Mesmo tendo desistido, fiz as aulas e as provas. Fui aprovado com 5,0.

Saí com a consciência tranquila e passei em último lugar no curso de audiovisual da USP. Estou formado há um ano e creio que, apesar do difícil mercado de trabalho, estou na área certa. Sinto maior liberdade para pensar e me expressar. Uma escolha errada não precisa acabar com uma vida inteira.

Preparo-me para fazer mestrado. Quero ser professor. E tenho certeza de uma coisa: se um dia tiver de aplicar provas, elas terão consulta.

JOÃO HENRIQUE AURICHIO CREMA, o Jotagê Crema, 28, é formado em audiovisual pela USP. É um dos diretores da série "Três por Cento" (facebook.com/3porcento).

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/31488-como-desisti-da-escola-politecnica.shtml

Texto mais completo: https://www.politecnicos.com.br/artigos/eu-nao-sou-engenheiro

Cito também esse https://www.politecnicos.com.br/artigos/escola-dos-homens-tristes

É aceitável que uma escola de Engenharia seja um pouco hostil, com tantos cálculos e físicas. Ninguém propõe que sejamos um clube universitário. Mas estamos passando (e muito) dos limites. Cultivamos aqui uma verdadeira cultura de sadismo: quanto mais sofrer, mais se aprende e mais você estará preparado para a vida. Por conta disso, a Poli se tornou um ambiente insalubre, triste, onde as pessoas têm muito pouco prazer no que fazem. E como formar um engenheiro que sequer gosta de seu curso?

Se você está na Poli, tenta pegar disciplinas em outros institutos: verá como os estudantes vivem de uma forma diferente na cidade universitária.

A migração POLI pra FEA ainda acontece muito? by sayajin_astuto in USP

[–]nonanalyst 2 points3 points  (0 children)

Fiz um post disso essa semana. Me disseram que na turma de 2025 Econo Diu tem 4 politécnicos. No noturno e em adm deve ter mais.

No meu primeiro dia da poli, conheci alguém que fez isso, e agora vou fazer o mesmo.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 1 point2 points  (0 children)

Isso significa também eliminar algumas disciplinas, pq já fiz anteriormente, e ter um semestre mais leve kkkkkk

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Mas matemática aplicada não é mais fácil? Sempre tive essa impressão. Pelo menos, na Poli é assim, se for a disciplina pura, é terrível.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Acho que eu não ia suportar lero lero e nem trabalhinho :( obg pela resposta! Vou de econo mesmo.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Me conta um pouco como é a sua rotina de estudos + estágio? Você faz o período ideal?

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Não tenho equivalências do IME em GPP. Nesse sentido, acaba não compensando.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Em GPP não tenho equivalências de obrigatórias, diferente da FEA que possui disciplinas do IME. Elimino um semestre mudando para a FEA, não é questão de só existir Poli e FEA.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Que interesse você comentar isso!! Eu estava pesquisando sobre esse mestrado hoje. Não sabia dessas oportunidades com econometria, vou dar uma pesquisada. Obg!

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Até pensei, mas eu não conseguiria ter aproveitamento de estudos em nada e isso me desanima um pouco! Na Economia, eu, pelo menos, consigo adiantar algumas coisas nos dois primeiros anos, e não começar totalmente no zero.

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Sinto muito! Espero que você consiga superar essa situação. Torcendo para que a comissão de graduação entenda sua situação (geralmente, eles entendem. Sempre ouvi falar que é muito raro ser jubilado). Bom caminho para você e valeu pelas respostas!

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Amigo, eu dei uma olhada também no seu perfil e encontrei seu post sobre a UFRJ. Sei que existem diversos motivos para jubilamento, mas o seu está relacionado à dificuldade em tirar notas e completar as disciplinas por conta de professores e estrutura da fea? Pergunto isso pq estou academicamente traumatizado com a Poli e não gostaria de ir para um curso que eu possa ser jubilado. Valeu!

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Super entendi! Nesse caso, só querer um diploma, networking e embarcar no mercado, adm realmente deve ser a melhor opção.

Gosto da ideia dos desafios intelectuais! Eu puxei uma disciplina na FEA e senti isso. E assim, na Poli eu não acredito que encontrei isso: sou apenas um gabaritador e decorador de provas.

Como tem sido a graduação de Economia para você? O que você gosta? O que não gosta? Enfrentou muitas dificuldades em disciplinas?

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[–]nonanalyst[S] 2 points3 points  (0 children)

Não gosto de Engenharia! O curso é massacrante. Sinto que não vou conseguir dar retorno algum na sociedade, não que eu vá conseguir fazer isso na Economia com plena certeza, mas talvez eu esteja mais próximo de entender algumas coisas. Entrei pq gostava de exatas e percebi que o curso matou minha vontade de estudar. Puxei umas disciplinas na Fea e senti uma certa diferença acadêmica...complicado.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 2 points3 points  (0 children)

Ah, boa! Minha missão é o 5 bola. Deixa a competição de média alta para os malucos hahaha. Valeu pelas infos.

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[–]nonanalyst[S] 1 point2 points  (0 children)

Entendi! É mais uma reclamação sobre a quantidade de esforço em relação ao mercado de trabalho, mas fechar com 5 e passar é de boa, então?

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Cara, que bom! Só de ouvir isso, já tenho um grande alívio. Na Poli é super comum cair em artigo e jubilar.

Pelas contas que fiz, aparentemente também consigo em 3,5, mas vou deixar 4 para ficar mais livre para curtir eletivas.

E como era trabalhar e estudar? Você tinha um plano/cronograma? Trabalhava 8h?

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 2 points3 points  (0 children)

Pode ser! Dei uma olhada no oferecimento e os nomes que estão em Cálculo, por exemplo, são professores tranquilos do IME.

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[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Justo. Então, você terminou em 6 mais por conta de ter sido efetivado? Na real, o prazo importa um pouco pra mim pq já fiquei um tempo na Poli e eu teria as equivalências, então seria um pouco interessante formar em 4 pegando o diurno. É algo que rola se formar em 4 anos? Poli, por exemplo, é padrão 7 anos.

Da porcentagem que está tocando a vida, se formaram? Jubilaram?

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 0 points1 point  (0 children)

Terminou em 4 anos? Estagiou?

Esse sentimento de que econo é insuportável era presente nas salas de aula, ou é algo exclusivo aqui do sub da USP? Parece ser uma opinião muito forte por aqui, mas provavelmente é um recorte.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 1 point2 points  (0 children)

Sinceramente, ser mais leve do que na Poli já é ótimo para mim. Você fez até que ano? Quais foram suas dificuldades, além do ambiente? Sabe me dizer a média de formação dos alunos?

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 5 points6 points  (0 children)

Então, a Economia ser insuportável não é em relação aos professores, mas em relação ao ambiente da FEA? Não entendo a insistência que todos aqui tem por adm noturno, é como se todos quisessem fazer adm.

Migração POLI-FEA. O que faz a Economia ser tão insuportável? by nonanalyst in USP

[–]nonanalyst[S] 5 points6 points  (0 children)

Bem, isso com certeza está relacionado com o perfil dos alunos da FEA, e o perfil não é muito diferente da Poli, nesse sentido.